Relato histórico

Visita de D.Franco Masserdoti em Moçambique-Lichinga –12 a 23 de abril de 2005


DADOS GERAIS DA REALIDADE

Moçambique fica na África meridional. Limita-se com a Tanzânia, Malawi, Zambia, Zimbabue (antiga Rodésia), República da África do Sul e com o Oceano Índico. Tem uma superfície de 801.509 km2 com cerca de 18 milhões de habitantes. A capital é Maputo (2 milhões de habitantes), as línguas são o português e uma dúzia de línguas bantú conforme as numerosas etnias.

Do ponto de vista religioso, prevalecem as religiões tradicionais com forte presença católica (4 milhões), protestantes (1 milhão) e muçulmana (3 milhões). Em Moçambique a convivência com os muçulmanos é relativamente tranquila.

Os primeiros missionários (1498) foram os jesuítas vindo de Goa (Índia), pois Moçambique era lugar de passagem entre Europa e as Índias.

Os caminhos da evangelização encontraram dificuldades e até perseguição (1880: expulsão dos jesuítas pelo Marquês de Pombal: ficaram naquela época só 5 missionários).

SITUAÇÃO SOCIAL

Desde as eleições multipartidárias realizadas em 1994, Moçambique tem registrado avanços significativos não apenas na consolidação da democracia, mas também no campo econômico.

O governo introduziu uma série de reformas macro-econômicas para estabilizar a economia. Estas reformas, juntamente a uma grande assistência por parte de muitos doadores aumentou o crescimento do Produto Interno Bruto de 7,1%. A taxa de inflação média anual é de 13,5%. O crescimento das exportações de bens em 29%. Moçambique também beneficiou duma reprogramação e de um perdão da dívida externa no âmbito de iniciativas do Fundo Monetário Internacional para países pobres altamente endividados.

Todavia, o Relatório do Desenvolvimento Humano das Nações Unidas, 2002, atribuiu a Moçambique o lugar de 170 entre 175 países, e o Plano de Ação para a Redução da Pobreza absoluta (PARPA 2001-2005) caracteriza o problema da pobreza como o principal desafio que se coloca ao país. Consequentemente, o Plano tem como objetivo específico a redução da incidência da pobreza absoluta para 60% em 2005 e para menos de 50% em 2010.

Fatores que causam pobreza (além da causa histórica do colonialismo e longa guerra civil entre Frelimo e Renamo):

– fraco nível educacional, sobretudo entre as mulheres;

– elevadas taxas de dependência nos agregados familiares;

– baixa produtividade na agricultura familiar, devido ao fraco poder de investimento;

– falta de emprego;

– fraco desenvolvimento de infra-estrutura básica, sobretudo nas zonas rurais;

– calamidades naturais (enchentes, secas, estragos das roças pelos elefantes);

– diferença de investimento entre Sul, Centro e Norte do país;

– o país depende muito da ajuda estrangeira (mais de 50% do orçamento estatal é financiado por doadores). Se por um lado foi criado um capitalismo nacional, por outro quem beneficia disso são os chamados “empresários de sucesso”, membros da FRELIMO e seus simpatizantes, que acabam por originar uma luta de classe dentro do Partido, onde agora se encontram juntos patrões e proletários;

– Prevalência dos grandes investimentos, e pouca atenção à agricultura familiar que continua a dar emprego à maioria da população;

– a corrupção. Uma pesquisa de 2001 revelou que uma pessoa em cada duas, foi vítima de extorsão nos últimos seis meses que precederam a pesquisa;

– fenômenos sócio-culturais como o tribalismo e a crença no feitiço que ela paraliza energias e estimula um clima de suspeita e de vingança;

– o impacto do HIV/SIDA (AIDS). A AIDS atinge cerca de 20% da população adulta e pensa-se que deverão ser orientados muitos dos recursos familiares, e do Estado, para tratar os doentes.

– o impacto da malária é a maior causa de morte, da lepra e da tuberculose. A espectativa de vida é de 36 anos.

SITUAÇÃO POLÍTICA

A democracia em Moçambique ainda não pode ser descrita como uma realidade visível e bem estabelecida. De fato, está caracterizada por uma relação ambígua entre o partido governante (Frelimo) e o aparelho do estado, por uma forte centralização, por uma fraca independência dos poderes legislativo e judicial, assim como dos media.

O setor da justiça é muito vulnerável, devido à corrupção que afeta o sistema judicial, e a falta de competência das instituições ligadas ao mesmo sistema.

A falta de confiança nos pilares fundamentais da democracia, quais a lei, a ordem e a justiça pode afetar também a sustentação do sistema democrático, tornando o país instável.

SITUAÇÃO ECLESIAL

A presença da Igreja foi marcante nas últimas décadas quando grupos de missionários e alguns bispos se posicionaram em favor da independência (25.06.1975). Nos primeiros tempos da independência o marxismo-leninismo implantado pela FRELIMO levou a Igreja a perder seus bens e suas obras pela nacionalização e a viver situações de “catacumbas” que a purificaram.

A Igreja foi protagonista no processo de paz, após a sangrenta guerra civil entre a FRELIMO e a RENAMO.

Recordamos neste sentido os documentos dos bispos “Esperança e Paz”, “Diálogo urgente para a paz”, “Paz e reconciliação”. A paz foi celada em Roma no dia 04.10.1992 e ela levou às primeiras eleições livres em 1994.

A Igreja viveu a experiência evangelicamente fecunda da pobreza e do martírio e cresceu como Igreja ministerial.

Agora a Igreja está vivendo o período da sua reconstrução dentro da reconstrução do país: ela colabora dando sua força moral e empenhando-se em projetos de promoção humana. Aqui se insere a importância da presença dos missionários. Chamados a ajudar, respeitando o caminho e o protagonismo deste povo e desta Igreja. O grande risco da Igreja é hoje a reconstrução sem levar em conta o modelo de Igredja vivenciado nos momentos difíceis. Não se trata de voltar atrás(clericalismo, busca de segurança material…) mas de crescer no modelo de Igreja que o sofrimento tem ajudado a aprofundar: Igreja família, Igreja pobre e despojada e martiral (Kenose), Igreja ministerial…

Encontros com os missionários(as) brasileiros(as)

– na BEIRA (Combonianos, Lassalistas, Xaverianos, Jesuitas)

– referência: ivopavanfse@hotmail.com; placio@terra.com.br

– em NAMPULA E ANCHILO (Irmãs de Jesus Crucificado, Irmãzinhas da Imaculada Conceição, Filhas de Jesus, Irmãs de São José de Chambery em Pemba, Irmãs do Imaculado Coração de Maria, Instituto do Sagrado Coração de Jesus)

– referência: antoniaalda@ hotimail.com; irmasmocimboa@teledata.mz; deliadecker@yahoo.com.br

– em LICHINGA-METARICA-CUAMBA (Projeto NE 4 e 5, Missionárias Capuchinhas, Missionários Consolata, Postelianas, Irmãs Divina Providência, Irmãs de Maria Imaculada, Irmãs Mensageiras)

– referência: fatimasehnem@yahoo.com.br; divipro@teledata.mz

– em MAPUTO (Paulinas, Franciscanas de Susa, Irmãs Consolata, Orionistas, Instituto Secular de Fátima, Salesianas, Servas do Espírito Santo, Carmelitas, Franciscanas)

– referência: Frei Fabiano-Secretário da Conferência dos Religiosos(as) de Moçambique: cirmconferemo@intra.co.mz

Todos concordam em destacar:

– a importância de manter um maior relacionamento com a Igreja do Brasil (é bom enviar mais material) e viver a experiência misionária como ocasião de comunhão das Igrejas para um enriquecimento recíproco. Nota-se que a Igreja do Brasil está mais disposta a ajudar do que a se deixar ajudar e questionar por outras Igrejas;

– a necessidade de uma formação permanente oferecida pela Igreja do Brasil (CNBB e CRB) aos missionários(as) brasileiros(as): tem poucas iniciativas de formação permanente em Moçambique, e os(as) missionários(as) precisam ser ajudados: o choque cultural pode chegar a uma desestruturação pessoal, a uma necessidade de refazer as motivações pessoas e a aprofundar os critérios de evanvelização…;

– a oportunidade de envolver pessoas moçambicanas para ajudar nos projetos de formação missionária (evitando a impressão de “gueto”).

Todos aceitam que haja todo ano durante as férias um curso repetido em três lugares para favorecer a participação de todos: Beira, Nampula, Maputo.

– Propostas para 2006:

– “Critérios Teológicos para a Inculturação”: possível assesor: Pe. Paulo Suess

– 1 dia de retiro e possibilidade de encontros personalizados com Irmã Maris;

– Datas preferenciais: 5 dias cada encontro, começando logo depois do Natal

(outro tema desejado: capacitação de formadores, de forma continuada, dando continuidade ao trabalho já feito por Irmã Marlene Brandão).

Há uma disponibilidade por parte de algumas Congregações femininas de acolher uma ou outra religiosa de outra Congregação por 3 anos para uma experiência, sobretudo na perspectiva duma futura abertura duma comunidade da Congregação da irmã acolhida.

Há uma total aceitação a acolher o curso de missiologia à distância, aproveitando da internet de alguns missionários (as) para depois xerocar os textos para os missionários(as) interessados. Há possibilidade de encontros de aprofundamento dos temas por grupos coordenados por monitores ou “facilitadores” locais.

Há um desejo (sobretudo na Província de NIASSA) de implantar a Pastoral da Criança, ampliando e aprofundando o que já foi realizado, de acordo com a situação social mas com a inspiração da Pastoral da Criança do Brasil. Ela exigiria aprovação dos bispos de Moçambique e a parceria com o governo para ter apoio da UNICEF. Seria interessante uma expressão de apoio da Dimensão Missionária da CNBB.

Em Moçambique há necessidade de oferecer possibilidades formativas ao clero local.

Além das universidades romanas que oferecem um aprofundamento doutrinário, não seria interessante a CNBB oferecer bolsas de estudo a padres diocesanos moçambicanos inseridos em paróquias e frequentando cursos em Belo Horizonte, ou Rio de Janeiro, ou São Paulo, ou Porto Alegre, ou outro lugar (aprofundamentos teológicos e pastorais)?

Observação: Estas propostas vão na linha da necessidade de ampliar os objetivos, os trabalhos e o pessoal (a tempo integral e/ou parcial) do CENTRO CULTURAL MISSIONÁRIO

PROJETO NE 4 e 5 : AGRADECIMENTO E SATISFAÇÃO

Regressando de minha visita a Moçambique desejo expressar minha gratidão a Celina, Guilhermina, Lourdes e Verônica pela fraterna acolhida. Deus lhes pague com a abundãncia de sua graça. Fiquei bastande satisfeito em constatar por parte de todos uma grande generosidade e fortes motivações missionárias. Constatei, graças a Deus, também um clima sereno que sem dúvida vai fazer crescer o “gosto pela missão”.

O bispo Dom Hilário e os padres de Nipepe (Pe. Simão) e Cuamba (Missionários da Consolata) como também as outras irmãs encontradas fazem uma avaliação positiva do nosso projeto. O povo gosta de nós e pede a continuidade de nossa presença.

Por tudo isso, dou graças a Deus e às nossas missionárias.

Desejo aqui recordar com estima e gratidão também Roberta e Pe. José Eugênio do qual também o bispo recordou a generosidade de dar-se acima das forças físicas.

Encontrei também nos outros missionários de lá, uma maior aceitação da nossa equipe. O ambiente é bastante sereno, depois de tantas dificuldades e “turbulências” do passado.

BOA MISSÃO

Às nossas missionárias quero expressar meus votos de boa missão através do texto evangélico de Mc 3,14: “Então Jesus constituiu o grupo dos Doze, para que ficassem com ele e para enviá-los a pregar.”

Que Deus ajude sempre mais vocês a viverem o espírito comunitário:

– na capacidade de trabalhar juntos com encontros periódicos de programação e avaliação;

– continuando a linda prática de comunhão de bens;

– continuando o diálogo, a recíproca aceitação e acolhida e o perdão;

– evitando sempre o julgamento e o fuchico e promovendo ao mesmo tempo a capacidade crítica e a correção fraterna;

– planejando momentos comunitários de formção permanente.

Que a amizade com Cristo seja uma motivação forte de sua caminhada.

Que vocês possam estar com Ele

– com o coração: pela oração;

– com os olhos e ouvidos: pela leitura e contemplação da Palavra;

– com as mãos e com os pés: seguindo os passos de Jesus como discípulas do Senhor, apaixonadas pela sua pessoa e pela sua proposta “que todos tenham vida” a começar pelos mais pobres;

– para enviá-los.

Que vocês se sintam enviadas ao povo de Moçambique.

Que vocês possam amar o povo com alegria, com humildade e generosidade procurando também deixar-se evangelizar pelo povo, deixar-se enriquecer pelo conhecimento da cultura, deixar-se moldar em sua própria estrutura pessoal de forma serena e equilibrada superando nossas falsas seguranças culturais e eclesiais.

RECONHECIMENTO DOS LIMITES

Vivemos nossa presença na África com serena humildade, reconhecendo a fragilidade de nosso projeto missionário

– pelo pouco tempo de presença na missão por parte de cada missionário(a): isso impede o aprofundamentop da cultura e da língua;

– pela dificuldade de trabalhar em equipe na vida comunitária: isso se deve à diversidade das pessoas, à limitação no convívio, na fase de preparação, ao fato que cada equipe deve começar ser missionários que garantam a continuidade. Além de mais os desafios e a imensidão de trabalho em Nipepe criam dificuldades para um projeto suficientemente avaliado em conjunto.

Do outro lado, há por parte de todos muito espírito de sacrifício, muito amor ao povo, muita solidariedade.

Por isso, o povo reconhece na nossa presença um testemunho de abertura e de gratuidade num ambiente marcado pelo tribalismo e fechamento.

PROPOSTA

Nosso projeto tem a característica da provisoriedade: é ponte – não é casa. É destinado a oferecer experiências para projetos mais prolongados, abertura de comunidades religiosas, projetos específicos de leigos missionários, compromissos de animação missionária no Brasil.

– de acordo com a atual equipe, Lourdes continua o serviço de coordenação.

Para o futuro, de acordo com o bispo de Lichinga, propomos:

– que a presença missionária em Nipepe seja garantida pela irmã Verônica e a Congregação dela (Congregação Missionária da Imaculada Conceição) reforçada pela presença de uma ou dus irmãs de outras Congregações para uma experiência de três anos. Isso garantiria continuidade no projeto. (o projeto NE 4 e 5 ajudaria na preparação e discernimento, mas não sustentaria economicamente esta presença);

– se tiver 01 padre disponível ao projeto ele completaria a equipe colaborando com o padre local.

– O projeto NE 4 e 5 ajudaria na preparação, discernimento, apoio econômico,….. leigos(as) missionários. Eles poderiam assumir projetos específicos (a ser definidos com o bispo e com a equipe paroquial) no campo da Educação, Pastoral da Criança e/ou Formação Bíblica e Trabalho Comunitário em Cuamba.

– A Casa de Cuamba continua sendo casa de acolhida para os(as) missionários(as) de Nipepe, e, eventualmente, Metarica.

– Os leigos missionários combonianos definiriam o seu projeto para o futuro com o Nordeste 4 e 5 ou com os missionários combonianos (Beira? Carapira?)

– A respeito da formação para o futuro é importante insistir sobre a dimensão comunitária. Para uma primeira aproximação africana, deve-se convidar alguém do grupo étnico Bantú (não nagô) porque os Makua são bantú.

– Deve-se também dar uma introdução ao Islam e oferecer critérios metodológicos para a inculturação.

– Deve-se ter um sério discernimento a respeito de quem sai.

– A respeito do financiamento e do envio do dinheiro, é bom aproveitar da disponibilidade das procuradoras e ecônomos combonianos.

– Seria interessante promover nas comunidades e nas escolas nas nossas dioceses no Brasil, coletas para pequenos projetos (por exemplo: compra de cadernos e canetas, tecidos para escola de corte e costura).

– De acordo com a equipe, Lourdes, é solicitada a continuar o serviço de coordenação.

– Apesar das dificuldades de comunicação a equipe insiste sobre a importância deste aspecto para fazer pontes que nos enriqueçam reciprocamente.

– As nossas missionárias se sentiram bastante isoladas. Além de mais a equipe teve que enfrentar problemas econômicos sem suficiente apoio no tempo devido por parte da coordenação do projeto.

– A respeito da economia, antes de tudo deve-se destacar o espírito de pobreza e a grande sobriedade de vida das nossas missionárias. Levando em conta a redução do valor do dólar e a impossibilidade do bispo de lá de completar a ajuda de custo das missionárias, concordamos que, a partir de janeiro 2005 incluido, a ajuda de custo para cada missionária é de 120 dólares mensais (90 dólares a serem colocados na comunidade e 30 dólares para necessidades pessoais).

– No fim da visita foram colocados para a equipe 10.000 dólares.

– – 4.700 dólares para ajudas de custo até o fim de dezembro 2005: (4.200 dólares para junho-dezembro 2005) e 500 dólares (acréscimo de 20 dólares de janeiro a maio 2005);

– 1.600 dólares: reembolso de empréstimos feitos em 2004;

– 715 dólares: ajuda para consertos na casa de Cuamba;

– 2.985 dólares: reembolso de passagens de Ir. Ana Maria e Roberta.

O dinheiro já está à disposição junto à PROCURADORIA COMBONIANA de Maputo (Pe. Horta).

PREVISÃO DE VOLTA

A previsão de volta ao Brasil da atual equipe é a seguinte:

– Lourdes e Guilhermina: agosto de 2006.

– Rose: novembro de 2006.

– Ir. Verônica e Ir. Celina: fim de 2006 ou começo de 2007.

 

Dom Franco Masserdotti

( Texto dos Arquivos do ProjetoÁfrica CNBB MA/PI )

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