MEMÓRIA

     Fazer memória de Dom Franco é tornar presente seu testemunho como estímulo para todos que o conhecemos e para os que acreditam na capacidade humana de fazer o novo acontecer. Dom Franco não necessita de elogios ou de saudades, nós é que precisamos de seu testemunho para continuarmos no mesmo caminho. Não morreu o sonho da libertação integral de homens e mulheres que acreditam num Brasil e num mundo diferentes. A semente da esperança teima em brotar e a nos surpreender produzindo flores e frutos neste continente.     Franco foi caminhante incansável, contagiante, nas trilhas da história, seguindo os passos do Espírito que sopra onde quer. Irmão de todos, perseguiu com teimosia o sonho da fraternidade universal. Alma jovem, sempre em busca do novo, coração apaixonado pela humanidade, olhar sempre atento para a história e para o alto em busca da vontade do Deus Pai e Mãe de todos. Verdadeiro filho de Comboni perseguia seu ideal: “África, Brasil ou morte”. Assumiu com entusiasmo e teimosia o destino dos últimos, lavradores, indígenas, favelados, sem terra… despossuídos da vida.

    Foi animador da vocação missionária da Igreja sem e além fronteiras, de uma Igreja que tivesse as dimensões do mundo e abraçasse todas as culturas e todos os povos, dialogando com todas as situações.

    Franco era humano e amigo. Nos anos de seminário em Pádua, onde ele era assistente dos seminaristas, conseguia animar os jovens para realizar iniciativas com mensagens fortes, que denunciassem a fome, as guerras e a dor no mundo. Nos anos da revolução estudantil (‘68), cursava sociologia em Trento, participando das iniciativas e dos protestos. Jovem entre os jovens, animando grupos paróquias, almejando um mundo justo e para todos. Sofreu pela reação de vigários e até de colegas combonianos porque suas atitudes e escolhas incomodavam. Muito inteligente e intuitivo, era também muito dinâmico, sempre em movimento. Ligado à sua família, acompanhou com carinho os últimos dias do pai pelo qual tinha um respeito enorme por ser uma pessoa integra e honesta. Um bom pai mesmo, como ele dizia.

     Franco não conseguia dizer não. Por isso, nós companheiros o definíamos como alguém que tinha a mente a esquerda e o coração à direita. Sua humanidade prevalecia sobre a mente e isto lhe provocava sofrimento e contradições. Tinha a dimensão do mundo, sem fronteiras e sem preconceitos: carinhoso e acolhedor, abraço forte, sorriso aberto, olhar profundo sem fingimento. Acreditava nas pessoas e deixava ao coração a última palavra.

    Chegava a todo lugar para marcar presença, às vezes de repente, para levar sua palavra, para dar um abraço. Quantos quilômetros rodados por isso! Quantas romarias, noites adentro, de animação, de mística pé no chão. Vivia com seu povo a religiosidade popular e acreditava de coração nas formas simples do povo viver a fé, levando de mãos dadas muita gente, contagiando com seu entusiasmo os desanimados e às vezes cansados companheiros de jornada.

     Seu lema “Eu vim para que todos tenham vida” se traduzia em escolhas e atitudes que promoviam a vida. Inúmeras iniciativas se tornaram realidades. Foi um bom pastor. Cantor da vida, sem descanso, celebrando com seu povo as liturgias da vida e a presença de Deus. Soube testemunhar o carinho e o afeto de Deus Pai e Mãe.

    De fé inabalável, vivida em todos os momentos da vida, na oração com seu povo como na intimidade pessoal, transmitia seu profundo sentido da presença do Espírito em sua própria vida.

     Bispo de Balsas, não manifestava seu sofrimento pelas dificuldades de sua diocese, pelas decepções com pessoas ou o trabalho. Pastor incansável, despojado e simples, confiava nas pessoas, acreditava no protagonismo da mulher.

     Foi defensor e militante da teologia da libertação, das comunidades de base, de uma Igreja comunhão e participação, Igreja povo de Deus a caminho, construindo o Reino da vida.

     A opção pelos índios o levou a solidarizar-se com eles por ocasião da agressão sofrida em Porto Seguro durante as celebrações dos 500 anos. Não usou sua posição de bispo para fugir da luta, ficou no meio do asfalto com seu povo índio.

    Chegaste em fim na Terra sem males, sonho e anseio dos teus irmãos índios que tanto querias, anseio dos que partilham teu ideal, o reino da vida para todos. Chegaste a passos largos: ignoravas o sentido do tempo e das medidas.     Teu espírito inquieto pelas aventuras da humanidade nos convida a buscarmos caminhos novos, novo céu e nova terra, novos horizonte para onde o Espírito nos guia.

   Tua corrida não foi em vão, foi a corrida dos justos, corrida de mutirão com teu povo que seguia teus passos. Agora és caminhante sem descanso ao nosso lado.

    Teu testemunho nos estimula a seguirmos adiante, história adentro, segurando no peito e na mente a causa do Comboni e do Evangelho, a causa dos pobres.

    Faremos nossas as palavras do teu ultimo recado: “a morte acontece quando abraçamos as coisas mais do que as pessoas, quando depositamos nossa esperança na busca do poder, do ter e do prazer desmedidos, que corrompem a mente e fecham o coração aos outros”.

   Foste uma dádiva, um pão partido e partilhado com todos. Obrigado irmão Franco.

 

Fonte do Texto : Site dos Combonianos Brasil Nordeste

Dom Franco foi o idealizador do Projeto África Moçambique em Lichinga, a ele nossa eterna gratidão e oração !

Faleceu 17.09.2006 vítima de acidente quando ia de bicicleta de uma comunidade para a sede da Diocese em Balsas/MA !

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